domingo, 9 de setembro de 2007

SAUDADE ...



E como a saudade é uma melancolia ...que se sente pela ausência de ... transcrevo para aqui uma obra de um poeta angolano (Tio Aires), que conheci e com quem convivi durante a minha passagem por Angola.



.... A MULEMBA SECOU

A mulemba secou.
no barro da rua,
pisadas
por toda a gente,
ficaram as folhas
secas, amareladas
a estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...
como as folhas da mulemba
foram-se os sonhos gaiatos
dos miúdos do meu bairro.
(De dia,
espalhavam visgo nos ramos
e apanhavam catituis,
viúvas, siripipis
que o Chiquito da Mulemba
ia vender no Palácio
numa gaiola de bimba.
De noite,
faziam roda, sentados,
a ouvir,
de olhos esbugalhados
a velha Jaja a contar
histórias de arrepiar
do feiticeiro Catimba.)
Mas a mulemba secou
e com ela,
secou também a alegria
da miudagem do bairro:
O Macuto da Ximinha
que cantava todo o dia
já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
passa o dia deitado
a pensar em muitas coisas.
e o velhote Camalundo,
quando passa por ali,
já ninguém o arrelia,
já mais ninguém lhe assobia,
já faz a vida em sossego.
Como o meu bairro mudou...
como o meu bairro está triste
porque a mulemba secou...
Só o velho Camalundo
sorri ao passar por lá!...

sábado, 8 de setembro de 2007

E SE UM DIA LÁ VOLTAR?


- Mesmo que os meus dias já se estejam diluíndo no tempo que passa, jamais deixarei de olvidar um sonho que se transformou num propósito, um propósito que deu azo a um tormentoso e obsessivo desejo de voltar a Angola... ainda que este propósito esteja cada vez mais longe do meu horizonte, porque a utopia não encurta as distâncias, e os propósitos, contidos no mais recôndito lugar do meu cérebro, não se irão concretizar só porque há uma vontade de que tal possa acontecer.
Imagino a Luanda dos anos 60 e início de 70, onde há o bulício dos "machibombos" na Mutamba, um aglomerado de pessoas que demandam o Prenda, o São Paulo, o Cuca ou o Vila Alice! A Ilha está repleta de banhistas, que, enquanto bebem uma Nocal bem geladinha e degustam uns "peceves", olham a Baía embevecidos com a beleza do pôr-do-sol, que vai tingindo o céu com tonalidades entre o ouro e o sangue, talvez para recordar que aquela guerra que vai decorrendo nas matas e faz correr o sangue de tantos inocentes, terá algo a vêr com as incomensuráveis riquezas do sub-solo de Angola.
Se um dia lá voltar, sem ser nestes nostálgicos momentos de sonho e fantasia, quero fazer a promessa a Nossa Senhora da Muxima de que jamais irei sentir o intuito do regressar por regressar, pois quero dar corpo e alma a uma terra que nunca deixou de ser da minha esperança no porvir, pois sempre foi um espaço de saudade incontida nos anos em que me vi ausente. Não será por qualquer sortilégio das águas do Bengo, que dizem fazer sentir uma enorme vontade de regressar, mas sim porque o meu coração havia ficado dividido na hora da partida... e é chegada a hora para se unirem os pedaços...
Quero que Nossa Senhora da Muxima me deixe dizer-lhe, a Seus pés, que pretendo sentir-me sempre junto d'Ela, que me protegerá para todo o sempre, como o faz à terra Angolana.
- Se um dia lá voltar, quero voltar a vêr florir as campas daqueles que tombaram para que Angola pudesse existir como um espaço de paz!
- Se um dia lá voltar, pretendo que todos os Homens de boa vontade possam dar as mãos, e irmanados num mesmo desejo de vêr Angola como a terra das oportunidades para aqueles que a trazem dentro do peito, sejam eles da raça, da côr, da religião, do sexo ou da língua que forem, porque a vastidão de Angola a todos pede apenas uma coisa: que todos os Homens saibam dar as mãos para construír um País de que se possam orgulhar e transmitir aos vindouros.
- Se eu um dia lá voltar... Angola não será mais uma saudade, mas a realidade perene, que dará os frutos que só o amor àquela terra poderá justificar.
- Se um dia lá voltar, Angola será o meu adeus às coisas do mundo, porquanto o meu espírito percorrerá todos os caminhos que vão das imensas florestas do Maiombe às terras vermelhas do deserto do Namibe... e por lá irá permanecer até à consumação dos séculos.
...
- Se eu um dia lá voltar...



NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!