terça-feira, 11 de setembro de 2007

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.



Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.



Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

...TEMPOS DE LUANDA

-----Naquelas horas da minha saudade, vejo a Luanda da minha juventude, onde um dia, por contigências de uma guerra que nos foi imposta, não importa saber por quem nem porquê, uma vez que a traição não se justifica... e Angola sofreu na carne a mais vil das traições que alguém lhe poderia fazer, quando foi vendida, por um prato de lentilhas, quando alguém a entregou em mãos que desde há muito tempo estavam ávidas por deitar as garras aos imensos interesses nos mais ricos minerais nobres, no petróleo, nas madeiras das florestas do Maiombe, nos varidíssimos produtos de uma terra fértil e generosa, que jamais regateou a abundância das colheitas... e fundamentalmente naquilo que ao café ou ao algodão diz respeito, tal como o sisal, o abacaxi, a banana... ficando fora das riquezas da terra os diamantes, pois eram um produto que estava em mãos "mistas", porque se haviam dividido por vários interesses os celebrados "feijões" que iam aparecendo na vasta região da Lunda.
-----Também o "ouro negro", saído das entranhas das terras de Cabinda para gáudio dos interesses americanos, tem contribuído para aumentar a corrupção entre vários sectores da vida angolana, pois o Povo continua a não sentir os benefícios provenientes do petróleo. Que "os preços de produção são brutais e ainda não são mais valias para o País", dizem os senhores que estão à frente dos destinos da Pátria Angolana, como se não fosse conhecida a colossal fortuna acumulada pela família Dos Santos, com interesses espalhados por tudo o que seja rentável para si mesmo, não importando com o sacrifício de quem. Esse quem é o Povo, que é sempre quem sofre as consequências da avareza daqueles que detêm o monopólio dos meios de produção mais rentáveis.
------Porque nunca foi o Povo consultado quando se fizeram os acordos para estes negócios? Porque está a família Dos Santos a dominar económicamente Angola, tal como o chefe do clã o tem feito a nível político? Será porque têm vergonha de terem de mostrar à sociedade as suas humildes posses, a indigência com que vivem num qualquer "Muceque", como acontecem nos seus casebres do Futungo de Belas ou nas "palhotas" de Luanda Sul, onde lhes falta tudo, e isto por causa das sequelas deixadas por um colonialismo feroz, que lhes retirou a esperança de, um dia, virem a ter uma vida com um mínimo de dignidade?
------Eu não queria ter a vida deles, palavra de honra, mas apenas e só por ter vegonha, isso sim, de estar a "matar" de muitas formas um Povo que já merecia que lhe dessem isso mesmo:
-------UM POUCO DE DIGNIDADE PARA VIVEREM A PAZ, FINALMENTE, E CRIAREM OS SEUS FILHOS COM ESPERANÇA NO PORVIR!
------Será isso assim tão utópico?


domingo, 9 de setembro de 2007

SAUDADE ...



E como a saudade é uma melancolia ...que se sente pela ausência de ... transcrevo para aqui uma obra de um poeta angolano (Tio Aires), que conheci e com quem convivi durante a minha passagem por Angola.



.... A MULEMBA SECOU

A mulemba secou.
no barro da rua,
pisadas
por toda a gente,
ficaram as folhas
secas, amareladas
a estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...
como as folhas da mulemba
foram-se os sonhos gaiatos
dos miúdos do meu bairro.
(De dia,
espalhavam visgo nos ramos
e apanhavam catituis,
viúvas, siripipis
que o Chiquito da Mulemba
ia vender no Palácio
numa gaiola de bimba.
De noite,
faziam roda, sentados,
a ouvir,
de olhos esbugalhados
a velha Jaja a contar
histórias de arrepiar
do feiticeiro Catimba.)
Mas a mulemba secou
e com ela,
secou também a alegria
da miudagem do bairro:
O Macuto da Ximinha
que cantava todo o dia
já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
passa o dia deitado
a pensar em muitas coisas.
e o velhote Camalundo,
quando passa por ali,
já ninguém o arrelia,
já mais ninguém lhe assobia,
já faz a vida em sossego.
Como o meu bairro mudou...
como o meu bairro está triste
porque a mulemba secou...
Só o velho Camalundo
sorri ao passar por lá!...

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!