terça-feira, 29 de janeiro de 2008

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


---- Quando era rapazola, talvez já tenham passado 50 anos, o chefe de uma família espanhola, daquelas que se deslocam a Portugal na época da Páscoa, pediu se lhe podia indicar onde podia comprar pastéis de Belém. Porque me dirigia aos Jerónimos, para assistir a uma cerimónia integrada nas celebrações pascais, de bom grado servi de guia ao simpático grupo de turistas. Fui explicando algumas coisas do que me iam perguntando, umas relacionadas com a topomínia alfacinha, outras com aspectos da monumentalidade que lhes ia passando pelos olhos... até que tive ensejo de lhes explicar um pormenor histórico ligado àquele local onde, a 13de Janeiro de 1759, o carrasco real sacrificou à sanha do Marquês de Pombal, por causa dos devaneios amorosos de um Rei amoral, toda uma família, pertencente à mais alta nobreza do Reino de Portugal.
---- E dei comigo a contar aquela história triste de homens, mulheres... e crianças que foram vítimas inocentes de uma vingança terrível. Rezava assim: - "No dia 03 de Setembro de 1758, seriam umas onze horas da noite, quando o Rei voltava ao palácio da Ajuda, depois de um dos seus encontros amorosos clandestinos, sairam-lhe ao caminho, no local onde hoje se sergue a Igreja da Memória, um grupo de três cavaleiros. Houve tiros que atingem o monarca num braço e na perna direita, mas sem gravidade. O Primeiro Ministro, Sebastião José, é encarregado de descobrir e castigar os autores. Na corte toda a gente sabia que o Rei, então com 44 anos, mantinha uma relação com Dona Teresa de Távora e Lorena, uma linda mulher de 35 anos, esposa de D. Luis Bernardo, o 4º. Marquês de Távora, que também era tia de D. Luis. O Patriarca dos Távoras, D. Francisco de Assis, o 3º. Marquez, que teria então 55 anos e era vice-Rei da Índia, não gostou de saber que o seu Rei e a irmã mantinham uma relação adúltera e disso deu conta ao Monarca. Também D. José de Mascarenhas, de 50 anos, Duque de Aveiro, igualmente ligado à família Távora por casamento com outra irmã de D. Francisco de Assis, tinha um ódio tremendo ao Rei e a Sebastião José, que o haviam prejudicado numa herança e haviam impedido o casamento de um filho com a filha do Duque do Cadaval. A investigação do atentado, mantida no maior segredo até uma certa madrugada de Dezembro, proporcionou largas dezenas de prisões e o interrogatório aos detidos, depois de tremendas sevícias e torturas sem fim, ditou a sentença datada de 12 de Janeiro em que os acusados foram condenados pelo crime de lesa majestade, alta traição, rebelião e parricídio, porque o Rei era considerado "o pai da Nação".
---- É assim que o dia 13 de Janeiro fica como o dia da ignomínia. O patíbulo foi montado a dois paços da casa onde são hoje os "Pastéis de Belém". Pombal encenou o espectáculo da morte com todos os cuidados, prolongando-o durante todo o dia. Imprimiram-se folhetos com a sentença, que ilustraram com os tormentos, para que todos deles tivessem conhecimento... e ficassem aterrorizados. A primeira a subir ao cadafalso foi D. Leonor. Foram-lhe exibidos os instrumentos de suplício e disseram-lhe pormenores do suplício que iria sofrer o marido, os filhos e o genro... e foi decapitada. Seguiu-se José Maria, o mais novo da família, com 22 anos, o marquez novo, Luis Bernardo, o conde de Atouguia, D. Jerónimo de Atayde, que era cunhado dos anteriores. Depois foi a vez dos plebeus Manuel Álvares, João Miguel e Brás Romeiro, a quem foram partidos os braços e as pernas, sendo ainda torturados... e depois estrangulados. O velho Marquês de Távora mal se conseguiu arrastar para o patíbulo, tais foras as torturas sofridas. Também lhe partiram as pernas e braços, à mocada, sendo passado pela roda e estrangulado, tal como o Duque de Aveiro. O último a ser supliciado foi o criado António Álvares Ferreira, que foi queimado vivo. Apenas um se salvou, que foi José Policarpo de Azavedo, mas até este acabou por ser queimado... em estátua.
---- Todos os corpos foram queimados e as cinzas lançadas ao Tejo. No local das execuções espalhou-se sal, para que nada mais ali voltasse a nascer. O nome "Távora" foi banido de qualquer registo. Outros membros da família foram presos no Forte da Junqueira, sendo as mulheres fechadas em conventos, a amante do Rei incluída, pois foi encerrada no convento das Trinitárias do Rato .
---- A Rainha D. Maria I mandou reabrir o processo, tendo então os juízes concluído:A pena do Duque de Aveiro foi confirmada, mas OS TÁVORAS ESTAVAM INOCENTES! "
---- Foi deste modo, com uma licção de história a uma simpática família espanhola, que dei comigo a constatar o facto de que, em todos os tempos, a injustiça conseguiu marcar a História de uma forma brutal e impressionante.

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!