quarta-feira, 23 de julho de 2008

A CARTA-BOMBA DO BISPO DO PORTO

D. António Ferreira Gomes
- Bispo de Portalegre de 1949 a 1952
- Bispo do Porto de 1952 a 1982
O Bispo D. António Ferreira Gomes, que nasceu em Penafiel em 10 de Maio de 1906 e faleceu em Ermesinde a 13 de Abril de 1989, foi uma voz desassombrada da Igreja num período em que o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, "manipulava" o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Da sua célebre carta se dão à estampa pequenos trechos, onde ressalta uma intervenção política que o conduziu ao exílio. Atentemos naquilo que escreveu:
"...A grande e trágica realidade, que já se conhecia mas que a campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa, é que a Igreja em Portugal está perdendo a confiança dos seus melhores. Não direi se este processo está, em princípio, no meio ou perto do fim; o que é evidente é que tal processo está em curso, por mim penso que muito e muito adiantado. Apresentarei apenas dois factos, que, podendo servir de símbolos, são já de si realidades enormes.No Minho, coração católico de Portugal, onde se pensava que bastaria sempre o Abade dar o «lá-mi-ré» e todos entravam imediatamente no coro, no Minho Católico, mal os padres começavam a falar de eleições, os homens, sem se importarem com o sentido que seria dado ao ensino, retiravam-se afrontosamente da Igreja.Nas juventudes da Acção Católica, onde tanto se quis dizer que os padres andavam a lançar inquietações e dúvidas, os dirigentes mais responsáveis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paciência)."
" – São os dois pólos, o da tradição e o da recristianização. Do que fica no meio, facilmente se poderá julgar.Está-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos operários e da juventude; se esta se perde, que podemos esperar nós da sorte da Nação?Como meio único de salvação, querem que cerremos fileiras em volta do Estado Novo. E apontam-nos os dentes das feras, que já se aguçam, e previnem-nos contra o masoquismo do martírio e lembram-nos os frades espanhóis que votaram pela república em lista aberta... Tudo isto para que as ovelhas se congreguem em volta do Pastor. Não me compete examinar nem discutir todos estes conselhos enquanto dirigidos aos fiéis da Santa Igreja, como tais e indistintamente como tais.Temos obrigação de pedir, e realmente pedimos a Deus que nos dê força e constância para afrontarmos a incompreensão e mesmo o martírio pela causa da Verdade e da Justiça. Mas poderemos traduzir esta imediatamente em termos de Estado Novo?... Ou, em atitude aparentemente contrária, abrigarmo-nos à sombra da Pax Augusta do Estado Novo, haja o que houver com a Verdade e com a Justiça?...Como terei de dizer que não identifico as duas causas, e como discordar em geral da Situação é discordar de V. Excelência, permita-me que apresente aqui umas recordações pessoais..."
– "...«Nós não podemos perder uma hora de trabalho; nós não podemos diminuir o ritmo do nosso esforço...»Parece-me, numa justa hermenêutica, estas palavras se devem tomar antes na sua tendência, que é de justificar a atitude que se vem defendendo, do que na sua materialidade de expressão...Como porém essa tendência vem já sendo objecto da minha discordância, permita-me V. Ex.ª que me cinja por um momento ao conteúdo material que se assinala.Apesar do meu feitio sedentário, não tenho nos últimos anos recusado as oportunidades que se me oferecem de viajar pela Europa, o que tenho feito ao rés da terra e da gente e com toda a possível atenção. Nem por isso seria necessário o conselho discreto de vários sociólogos, amigos de Portugal, que por delicadeza nem sequer me dizem as razões desse conselho.Não poderei dizer quanto me aflige o já exclusivo privilégio português do mendigo, do pé descalço, do maltrapilho, do farrapão; nem sequer o nosso triste apanágio das mais altas médias de subalimentados, de crianças enxovalhadas, exangues e de rostos pálidos (da fome, do vício).Mas, precisamente no ponto preciso do trabalho e do seu ritmo, tenho colhido a impressão espontânea, que pode ser ilusória mas não tem sido desmentida, de que em parte alguma, mesmo no Sul da Espanha ou da Itália, se nota como entre nós o ritmo lento do trabalho, um aspecto de desemprego larvado, a pequena diferenciação ou quase confusão entre as horas de trabalho e o tempo de lazer – ou lazeira, como melhor se diria – com a voz do povo..."

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!