domingo, 5 de outubro de 2008

5 de OUTUBRO de 1910 = REPÚBLICA

* Leiria, mesmo não havendo muitos escritos sobre a sua participação no Movimento de 05 de Outubro de 1910, que implantou a República em Portugal, também teve a sua quota-parte nesse evento, até na consolidação dessa mesma República, como passo a relatar.
* Quando da proclamação da República, houve necessidade de explicar às populações das aldeias sobre as vantagens do novo sistema político, procurando-se algumas colectividades do concelho para esse efeito, especialmente aquelas que tinham já uma vida regular de associativismo, uma vez que era importante juntar o Povo.
Foi o caso ocorrido nas Cortes: realizou-se lá um comício de propaganda republicana no dia 29 de Janeiro de 1911, uns escassos quatro meses após a implantação da República, e a imprensa local, na circunstância o semanário “Leiria Ilustrada”, tratou de fazer a competente reportagem, até porque o seu director, Tito Larcher, era um republicano dos mais activos e fez ponto de honra na sua presença.
* Passada uma semana sobre este evento, no dia 5 de Fevereiro, foi à Barreira que foram cometidas as honras de vêr ser publicada uma reportagem na imprensa sobre a República.
* Curiosamente, o entusiasmo foi tão generalizado e contagiante que a própria Filarmónica das Cortes tratou de vestir galas e “enfileirou” na animação dos comícios, deixando para a posteridade a informação de que estava viva e actuava como também acompanhava os movimentos sociais e políticos do seu tempo.
* A Filarmónica das Cortes, que tinha já uns consideráveis 30 anos de vida e tinha um histórico de actuações bastante intermitentes, tratou de animar o comício das Cortes, tal como depois o fez também na Barreira. Desconhece-se se foi uma adesão espontânea da banda ou se foi contratada... tal como não se sabe se, por essa altura, ela participou noutros comícios ou nas manifestações políticas que ocorriam um pouco por toda a parte. Mas que esteve presente nestes, não restam dúvidas. E que os seus dirigentes e mentores, designadamente o professor João Cordeiro Gonçalves, a quem se juntou Manuel Carvalheiro, Manuel Cordeiro Gonçalves e Luís de Oliveira, entre outros, eram “ferrenhos” republicanos também restarão dúvidas, até pelo facto de eles terem vindo a constituir a comissão partidária local.
* Mas vejamos o que se escreveu sobre estes assuntos num dos jornais da época – o “Leiria Ilustrada”, como já foi referido.
A primeira notícia, sobre o comício nas Cortes, vem inserida no “Leiria Ilustrada” n.º 267, de 4-2-1911, com o antetítulo “
Vida Partidária” e dela consta o seguinte:

«Comício nas Cortes
«No pitoresco lugar e freguesia das Cortes, deste concelho, realizou-se no domingo último [29-1-1911] um comício de propaganda republicana, em que falaram vários oradores, entre eles o fundador e director deste semanário [Tito Larcher] e dois novos com aptidões, os cidadãos Manuel d’Assunção e Fernando Santa Rita.
«Foi uma sessão esplêndida, não só pelos assuntos versados, mas principalmente pelo grande número de pessoas que assistiu e que, com a máxima atenção, escutou a palavra dos propagandistas.
«Os oradores e outros cidadãos foram recebidos pela filarmónica da terra.
«Após o comício, instalou-se a respectiva comissão partidária que ficou composta dos seguintes cidadãos: João Cordeiro Gonçalves, presidente; José Lopes Ribeiro, secretário; Manuel Carvalheiro, Manuel Cordeiro Gonçalves e Luís de Oliveira, vogais.
«A posse foi dada pelo cidadão presidente da Comissão Municipal, Pires de Campos.
«Constituída a comissão, os oradores e outros correligionários de Leiria foram acompanhados até à saída por grande número de indivíduos das Cortes e a mesma filarmónica que os tinha recebido.
«Foi uma bela jornada que deixou em todos as mais gratas impressões.»
Quanto à segunda notícia, relativa a idêntico comício na Barreira, pode ler-se no mesmo jornal, na sua edição n.º 268, 11-2-1911, desta vez com o antetítulo “Propaganda Republicana” que é do seguinte teor:
«Comício na Barreira
«Como foi anunciado, realizou-se no domingo último [5-2-1911] o comício de propaganda republicana, na vizinha freguesia da Barreira. Às 8 horas da manhã, e quando o povo saía da igreja e num estrado previamente arranjado e engalanado, usaram da palavra por sua ordem os cidadãos: Tito Larcher, Manuel d’Assunção, Silvério dos Reis e Pires de Campos.
«O reverendo coadjutor padre Bernardes, à hora da missa fez uma pequena prática aos seus paroquianos sobre a missão dos propagandistas e a forma do governo actual.
«Em palavras de verdade, os propagandistas, em linguagem chã, estigmatizaram o falido regimen e demonstraram a superioridade da forma republicana. Os oradores e outros cidadãos de Leiria foram esperados pela filarmónica das Cortes que, antes e depois do comício, tocou a “Portuguesa” e a “Maria da Fonte”. Depois do comício, procedeu-se à instalação da Comissão Paroquial Republicana da Barreira que ficou assim composta: António Ferreira da Cunha, presidente; José Alves Gomes Batalha, secretário; os dois da Barreira; vogais: Manuel Henriques e António Bento, dos Andreus; e Joaquim da Cunha, do Pinhal Verde.»
De notar a referência ao pároco que, com o bom senso que aconselhavam os tempos, «à hora da missa fez uma pequena prática aos seus paroquianos sobre a missão dos propagandistas e a forma do governo actual». E também a linguagem empolgada do repórter que refere as “palavras de verdade” dos propagandistas com que «estigmatizaram o falido regimen e demonstraram a superioridade da forma republicana».
* Ainda uma nota para o facto de a Filarmónica das Cortes, nessa altura, já ter no seu repertório “A Portuguesa”, o hino da República!
* Este foi um bom momento, dos, aliás, muito raros, da imprensa local sobre a vida social e política das comunidades rurais do nosso concelho. Ficaram registados dois acontecimentos significativos e emblemáticos de duas comunidades vizinhas – Cortes e Barreira –, e isso ajuda-nos a compreender melhor a nossa história local e a forma como os nossos patrícios contribuíram para a fazer.

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!