sábado, 17 de janeiro de 2009

LEIRIA DE ONTEM E HOJE...

Quando se nasceu à sombra do Castelo, onde havia o velho se hábito de conviver com enormes pedregulhos que, soltando-se lá do Pico, rolavam pela encosta abaixo, atravessavam a Avenida Ernesto Korrodi e iam caír nos quintais da Dona Felícia ou no do Carlos Silva... onde rolavam até atravessar a parede da minha casa, situada na rua Damião de Góis, onde, invariávelmente, acabavam os dias como objectos decorativos, porque se tornava impossível remover tais monstruosidades de "calhaus" sem colocar em perigo a estrutura da casa, a saudade desses tempos poderá parecer sádica... mas acredite-se que não é!
Quantas vezes aconteceu eu ir colher uvas à vinha sobranceira ao pico... e algumas vezes cheguei a julgar que estaria a ser castigado pelo pecado de estar a ajudar a vindimar aqueles bagos docinhos que ali se produziam, porque rolavam pequenas pedras lá do alto, e eu tomava aquilo como se algum anjo vigilante pretendesse defender aquelas uvas.
É que, mesmo com o perigo do desprendimento das pedras, que aconteciam amiúde, cá o rapaz não podia passar sem dar os seus passeios até às muralhas, passando pelo meio daquela vegetação que cobria o cabeço onde aquelas pedras históricas estavam implantadas. Se não havia trilhos abertos... abriam-se! Os bichos... esses pediam a todos os santinhos que não fosse a miudagem a fazer-lhes mal, que eles também o não faziam.
Aprendi a conhecer aquele morro como a palma das minhas mãos, porque era preciso ir arranjar musgo para o presépio, encontrar paus que pudessem servir de stick nas renhidas pelejas de hóquei... sem patins, que aconteciam nos terrenos dos antigos armazéns da Teresa do Ritto, na rua João de Deus, onde hoje se vêem Bancos, estabelecimentos comérciais vários, habitações em profusão, com miríades de escritórios de advogados, de consultórios médicos... e até cabeleireiros, mas ontem não passava de uns terrenos a aguardar melhores dias... que vieram, felizmente.
E aquelas saudades de ir ao quiosque do Senhor Maurício comprar rebuçados da bola, esperando que o boneco carimbado nos viesse a saír... os primeiros cigarros fumados, comprados avulso no mesmo quiosque.
Ou quando se comprava, no Baltazar & Rodrigues, aquele postal para mandar à nossa primeira namorada... aquela garota sardenta que nos levava a procurar no Moisés, no Márinho Fonseca ou nos vendedores ambulantes, que faziam os mercados de Leiria, as tradicionais alianças de namoro, para oferecer à miúda... que acabava por nos dar tampa.
Quem não namorou nos Castelinhos ou no miradouro? Quem não gostava de se passear pelo jardim, para aí espreitar o à vontade da espanhola Dona Conchita, que se sentava na explanada como se aquele fosse o seu local predilecto para os banhos de sol?
São tempos de uma Leiria que não voltará, até porque as cheias do rio Liz já aconteceram há tantos anos...
Hoje é uma cidade que quase se não reconhece, porque o progresso assim o exigiu, mas que a velha Leiria do Fura, do Nau, do Hingá, do Augusto dos Jornais, do Armandinho, dos Ataídes, do Sr. Lima Sacristão, do senhor Baltazar, do Café Aviz, do Santiago ou do Colonial, do barracão onde funcionava o Cinema de Leiria, do Alcoa, do Marques da Cruz, do Joaquim Prior, da Drogaria do Zeferino, da Mercearia do Espírito Santo, do Poças, do Gomes e Henriques, da Papelaria da Moda, da Alfaiataria Trindade, do Louzada, do Arcádia, do Hotel Liz, da Pensão Leiriense, do Porto Artur, da Barbearia do Paixão, da Mercearia do Esteves - onde nos deliciava o cheirinho do café torrado moído pelo senhor António -, da Adega dos Caçadores, do Gato Preto, do Escondidinho, do Domingos Polícia, da Capelinha do Monte, da Dina Retratista, do Fabião... para não me tornar exaustivo no desfiar das minhas memórias, merecem bem ser recordados por serem uma parte da história de uma cidade, que cresceu e se tornou numa bonita capital de Distrito.
Quantas memórias ainda tenho de ti, minha Leiria!

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!