domingo, 9 de janeiro de 2011

MALANGATANA - MORREU UM ARTISTA!

Malangatana no início da sua vida artística (1962)
Tive oportunidade de conhecer Malangatana Valente Ngwenya (ou Nguenha) e a sua obra (parte) pictórica depois que fiz uma visita à sua casa sita no Bairro do Aeroporto, na então Lourenço Marques, ficando desde logo impressionado com as figuras que o artista se comprazia em pintar, recordando-me o traço único de Pablo Picasso, a expressão mágica dos "bonecos" de Miró... mas fundamentalmente transportando-me até Paris ou Amarante, para contemplar a obra ímpar de Amadeo de Sousa Cardoso, que sempre me fascinou. Malangatana entrou na galeria dos meus artistas favoritos.

Era um cultor do expressionismo e do surrealismo, que tinha uma pintura quente, em que retratava a sua querida África, com a expressão que aquelas tendências da pintura europeia lhe iam permitindo usar nos momentos em que dava asas à sua fértil imaginação através daquilo que o pincel e as tintas iam colocando na tela.
Malangatana "conheceu" alguns dos génios da pintura através da leitura de biografias que lhe haviam sido oferecidas, pois a sua formação como pintor, ceramista, escultor e poeta foi conseguida através do seu interesse em cultivar uma vocação... que passou por muitas experiências de vida, uma vez que foi pastor, aprendiz de curandeiro, mainato, tomou conta de crianças, foi apanha bolas num Clube de Ténis... e aqui conheceu quem seriam os Mecenas que lhe abririam as portas do êxito, como foram o artista plástico e biólogo Augusto Cabral, a quem ele havia pedido um par de sapatilhas e quando as foi buscar a casa daquele viu que este estava a pintar, perguntando então se o ensinava. Augusto Cabral ofereceu-lhe então um livro biográfico sobre o pintor impressionista francês Monet, tintas, pincéis, algumas placas de contraplacado e disse-lhe: "Pinta o que tiveres na tua cabeça!".
O outro Mecenas foi o arquitecto "Pancho" Miranda Guedes, que lhe facultou a sua garagem para que Malangatana aí fizesse o seu atelier. Era o ano de 1960 e em Moçambique tinha acabado de nascer um artista profissional. Mesmo a prisão efectuada pela PIDE em 1964, quando foi acusado de pertencer à FRELIMO, não o fez esmorecer. Libertado 18 meses depois, porque não se havia provado a militância política, começou por pintar uma obra em que se reflectia a situação política moçambicana. Logo que chegou a paz e se deu a Independência, flectiu para uma pintura mais optimista sobre a história do seu país.
Foi deputado pela FRELIMO entre 1990 e 1994, fez parte do Movimento Moçambicano para a Paz, foi eleito para a Assembleia Municipal de Maputo em 1998 e 2003. Era membro da Direcção Nacional dos Escuteiros de Moçambique.
No dia de Natal do ano de 2010 foi internado de urgência no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, onde a filha é médica, tendo morrido no dia 05 de Janeiro do ano em curso, cerca das 03H30, vitimado por um cancro. Tinha 74 anos de idade. O corpo será transladado para o Maputo, onde será sepultado com honras nacionais.

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!