sexta-feira, 5 de agosto de 2011

TOUROS EM LEIRIA...


Ao vêr a corrida de touros, que a televisão transmitiu a partir do Campo Pequeno, apresentar João Cerejo, o cavaleiro tauromático natural de Porto de Mós, e porque está próximo o tempo em que, na minha meninice, havia festa brava na então Praça de Touros de Leiria, erguida no início do monte onde pontifica o Santuário de Nossa Srª. da Encarnação, cujas festividades justificavam a realização da tourada, não poderia deixar de manifestar a minha saudade daquele espaço cultural que aprendi a amar e respeitar...
No ano de 1939 acabou destruída, cortando-se pela raíz uma tradição que vinha desde os tempos remotos em que se correram toiros em Leiria, havendo referências a touradas realizadas por toda a região no reinado de D. Duarte, que decorreu entre os anos de 1433 a 1438, não obstante a sua experiência governativa ser muito anterior, pois já então partilhava com o pai – D. João I – a direcção dos destinos do reino.
É conhecido que el-rei D. Duarte se interessou pelos assuntos relacionados com cavalos e toiros sendo até de sua autoria o livro Arte de Bem Cavalgar em Toda a Sela.
Há referências à antiga Praça de Toiros em Leiria, que se inaugurou em 19 de Maio de 1891 e comportava cerca de 4.000 espectadores, tendo sido  erigida por subscrição pública e tendo também pertencido a uma sociedade.
Mais tarde, em 1919, na sequência da degradação da Praça, foi constituída uma comissão  que resolveu recolher fundos para a sua reparação e solicitou aos detentores das acções para que estas fossem cedidas de forma a que as instalações fossem oferecidas ao Hospital D. Manuel de Aguiar, de Leiria, pois passaria a ser explorada por esta instituição, como aliás já acontecia noutras localidades onde as Praças de Toiros já teriam sido doadas às Santas Casas da Misericórdia.
Assim aconteceu, de facto, mas a Praça foi-se degradando  graças à incúria de quem dela deveria cuidar, vindo a Praça de Toiros de Leiria a ser demolida nos anos 60, por falta de iniciativa do poder local para que se efectuassem as devidas reparações de manutenção.
Em criança fui "iniciado" nesta vivência cultural que é a Festa dos Touros e aprendi a respeitar não só os artistas como os touros, que sempre senti serem animais nobres e inteligentes, não merecedores de alguma publicidade que sobre eles tem sido feita em alguma comunicação social. Os touros são princípio e fim de uma tradição que jamais poderá ser trocada pelos espectáculos degradantes daqueles que dizem defender os direitos dos animais... mas defendem uma posição mais política que ética.
Regulamentar as touradas é uma coisa totalmente diferente do acabar com essas mesmas touradas. Pode ser feita a festa sem derramamento de sangue, é verdade, mas tira-se a verdade a essa festa. Há todo um ritual que se perde, se não se encontrar um meio termo para as coisas.
Desde a cerimónia da embolação dos touros até ao primeiro toque do cornetim que anuncia a faena, tudo faz parte de algo digno de ser visto. Nas corridas à antiga portuguesa via no cortejo um repositório histórico impar. Os charameleiros, o neto,  os pagens, os clarins, a azêmola das farpas, os forcados,  os coches com os artistas... tudo era um belo espectáculo para os nossos olhos extasiados.
Cheguei a vêr actuar em Leiria os manos fidalgos da terra  D. Luis e D. José Atayde, o Dr. Fernando Salgueiro e D. Francisco de Mascarenhas, os forcados amadores de Santarém, os magníficos  touros da ganaderia Soler... a animação dos passe dobles tocados pela Banda de Música da dos Pousos... a côr... os risos... a alegria... a vibração... a aficcion... a coragem... o medo... via-se um pouco de tudo  na arena da Praça. No ar estalejavam foguetes, os moços e moças sorriam fora dos muros onde estava escrito SOL/SOMBRA, SOMBRA, SOL,  quando  ouviam os olés com que a assistência vai premiando o trabalho dos artistas durante o desenrolar da faena.
Naquela Praça também vi actuar os matadores Diamantino Viseu, Manuel e António dos Santos, os cavaleiros José Casimiro, João Núncio, Simão da Veiga Júnior ou o Pedro Louceiro, o dietro Chico Mendes, o Curro Romero, os bandarilheiros irmãos Badajoz, o  Bienvenida e tantos outros matadores, cavaleiros, novilheiros, bandarilheiros, forcados... enfim: A FESTA VIVIA-SE EM PLENITUDE!

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!