sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O DIA DO "BOLINHO"

 Há muitos... sei lá à quantos anos,  este dia de Todos os Santos era por mim,  comemorado não apenas como um dia de Feriado, em que me podia furtar às "canseiras" da Escola, mas como um dia em que nunca  fugi  ao cumprimento do dever de assistir à Missa na Sé, para depois poder cumprir o 'santo sacrifício' de calcorrear as ruas e vielas da minha Leiria, lançando o sacramental pregão "Ó tia dá bolinhos, pela alma dos seus santinhos?".  
 
Era quase o cumprimento de um ritual, que se repetia ano após ano, vendo-se as crianças de sacola na mão, os mais velhitos a orientar os pequenitos, os olhos brilhantes pelas guloseimas que se conseguiam arranjar, os mais espertos a tentar enganar os outros sobre os locais onde havia mais generosidade no dar. Mas havia também os solidários, os que gostavam de partilhar, os líderes que tentavam manter as suas "tropas" disciplinadas, os animadores que iam lançando as palavras de ordem... enfim: OS MIÚDOS NÃO SE DEIXAVAM ENGANAR! 
 
Pelas ruas de Leiria, as crianças, transportando o seu saco, vão percorrendo as ruas e ruelas e batem à porta de familiares, vizinhos e desconhecidos, com a tradicional frase: ’Ó tia, dá bolinho?’. Na ausência de bolinho, as ofertas podem ser constituídas por frutos secos, romãs, peras, maçãs, passas de uva ou de figo, chocolates, rebuçados ou dinheiro.
Esta tradição foi 'buscar' os seus princípios ao Cristianismo, sendo a expressão da solidariedade e amor pelos outros, em especial pelas crianças.
Nos tempos em que a fome apertava, tal como hoje está a acontecer, infelizmente,   era este o dia  em que as crianças tiravam a barriga de miséria, sendo a manhã do dia de Todos os Santos uma manhã dedicada às crianças, em que se tratavam os vizinhos por «tu» e ninguém negava o bolinho.
Das várias lenga-lengas do "Pão por Deis", recordo estas duas, que tinham muitos seguidores:
Quando os donos da casa dão alguma coisa:
"Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho."

Quando os donos da casa não dão nada:
"Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto."

NO MUNDO ASSIM...

NO MUNDO  ASSIM...
era bom viver nesta terra... bonita!