Não consigo deixar de pensar naquilo que poderia ter acontecido a este País se, quando Norton de Matos e Vicente Ferreira, dois Homens cuja memória não deveria jamais ser olvidada por quantos conheceram a sua obra nas terras vermelhas de sangue da sua amada Angola, quizeram mudar a capital de Portugal para Nova Lisboa.
Talvez a côr natural dessas terras fosse mesmo aquele avermelhado que, do ar, se avistava pelo horizonte sem fim, mas não podem restar dúvidas de que o sangue de milhares de pessoas sacrificadas em nome de uma independência, no que aos naturais respeitava, ou pela continuação daquela Pátria una e indivisível, que Camões imortalizou em verso, como tantos outros poetas de antanho o fizeram também, ao longo dos séculos.
Os anos vão passando, a independência tornou-se uma realidade, mesmo que para tal houvesse necessidade de outra guerra mais sagrenta e destruidora, pois destruiu tudo o que de bom os Portugueses haviam construído em Angola, com bens absolutamente perdidos, dado não ter sido possível salvar o que quer que fosse da sanha assassina independentista, levada ao cúmulo quando a luta "decidiu" lançar irmãos contra irmãos, e as facturas a começarem a ser passadas pelos Países que haviam dado cobertura à bárbara matança dos povos do Norte, com o beneplácito de uma ONU incapaz de isenção, de uns Estados Unidos que se arrogavam em polícias do mundo, convencidos de bastarem os seus dólares para impôr a paz que... nem para eles estava garantida no Vietnam, onde os americanos morriam como moscas, que me desculpem estas, que não têm culpa dos dislates do Tio Sam.
Se alguém pretender colocar em causa a heroicidade dos Portugueses - pretos ou brancos - bastará olhar com olhos desprovidos de "partidarite", de esquerda ou de direita, para a odisseia dos resistentes de Mucaba, para a dignidade das mulheres residentes nos Dembos, em Quipedro, no Quitexe, em Nambuagongo... em suma: por todo o Norte de Angola, em qualquer lado onde houvessem fazendas, bailundos ou brancos.
Cheguei ao Negage e vi sinais evidentes de que o horror tinha passado por ali! Conheci pessoas idosas que ganharam novas forças na ansia de salvar os netos da bestialidade animalesca dos "heróicos homens da UPA do Holden Roberto" ou dos "turras" comunistas do MPLA e assassino Agostinho Neto e dos seus acólitos. Não fosse o generoso contributo de homens rudes como o lendário "Carvalho das Barbas" e dos seus Voluntários, da prontidão dos homens da Força Aérea - Páraquedistas, Pilotos, Mecânicos e todos os demais que "cumpriram para além do dever"... "para que os outros vivam!".
Recordo os passeios pela Serra da Chela ou pelo Planalto da Huíla, as Quedas do "Duque de Bragança", a Restinga do Lobito, as festas de Sá da Bandeira ou de Benguela, o calor do Deserto do Namibe, nas "Terras do Fim do Mundo". E os bailaricos dos Santos Populares no Bairro de São João ou de Santo António... as 6 horas de Nova Lisboa em automobilismo, ou as 24 horas de Luanda... as fitas exibidas no Ruacaná, os acepipes do "Alentejano", as torradas e os batidos da "Diana"... os passeios pela marginal de Luanda, ao entardecer, a imperial fresquinha, acompanhada por um bom pratinho de camarão, dobrada com feijão branco ou "jaquimzinhos" fritos, servidos pelo sorriso bondoso do empregado de mesa João, que era o "mais velho" da "Portugália".
Ainda me vejo deambular pela Mutamba à hora de ponta ou de passeio pela Maianga, pela Cidade Alta, pelo "Salazar" ou pelo "Prenda", pelo São Paulo ou Vila Alice.
Quantos anos ainda perdurará a memória de Angola no coração dos Portugueses? É que não deverá restar muita memória num país em que se demoliram monumentos erguidos por um povo que deixou o coração a Angola, juntamente com uma vida de labuta, de trabalho árduo de que apenas lhe restou a frustração de um retornar à Pátria Mãe de mãos vazias, porque um punhado de pseudo patriotas resolveu capitular perante um inimigo derrotado em todos os campos, quando resolveu convencer-se de que o caminho do fim da guerra em Angola era o da entrega, pura e simples, daquele território que foi Portugal por mais de 500 anos, nas mãos de um grupo completamente enfeudado nos princípios do Marxismo e nas garras do Comunismo, como era o MPLA. Porque o 25 de Abril abriu muitas portas, na realidade, até as da traição a um Povo que acreditou até ao fim poder continuar a ser Português. Quando voltei a Luanda, como doía encontrar "Kokuanas" a mostrar o Bilhete de Identidade Português e a perguntar "quando termina esse coisa do independença, minino? Gente tá farto de sofrê, ué!".
Quando ouço o "Muxima", pelos "Ouro Negro"... a saudade quase mata!
Também o Bonga, o meu Amigo Barceló de Carvalho, quando canta Angola, me tráz à memória uma terra que aprendi a amar... mas que a vontade de alguns levou para longe, tornando sofridos os dias daqueles que se reviam nas terras demandadas por Diogo Cão à mais de 500 anos!
E as saudades de Angola custam tanto...