
Situe-se Leiria e a sua função de cidade na História Pátria. Poderá verificar-se aquilo que ela representa no conceito do País, medindo-se o significado dos acontecimentos que lhe são respeitantes e escalonam a sua vida local no decorrer dos séculos passados.
Pode-se afirmar que a história de Leiria começa, sem qualquer dúvida, no ano de 1135, data que os "Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses", também chamados de "Chronica Gothorum"`, atribuem a construção do Castelo de Leiria pelo Príncipe D. Afonso Henriques, que foi erguido num local amplamente deserto e numa terra deserta, segundo a carta do Príncipe ao Papa Adriano IV, cerca de vinte anos depois. No entanto, porque há sempre detractores, vários autores põem em causa tal afirmação, pois não era possível a zona estar totalmente despovoada tendo-se em conta as lutas travadas entre Santa Cruz e o Bispo de Coimbra para a manutenção da jurisdição eclesiástica no termo de Leiria, motivo porque convinha acentuar-se haver sido toda a vida humana uma iniciativa do Rei benfeitor, não sendo fácil justificar que o Rei houvesse concedido a jurisdição eclesiástica fosse a quem fosse, sendo esta pertença da autoridade da Igreja. O que se pode afirmar é ter sido voz corrente, na literatura dos séculos XI e XII, haver sido feito o povoamento de um lugar deserto, mas não se pode tomar a afirmação como uma verdade inquestionável.
Os cónegos regrantes de Coimbra estabeleceram tal vínculo à cidade que acabaram por apagar da memória tudo o que, vindo do passado, pudesse enfraquecer, mesmo no domínio da história militar do Castelo, pondo em causa o seu completo domínio sobre os cristãos que formavam a comunidade citadina. A construção do castelo constituiu um corte com o passado, é definitivo, como também é certo que o lugar não era ermo e despovoado.
A fortificação erguida era uma construção que visava ser ponto estratégico para a defesa do sul de Coimbra, que era assolada, com muita frequência, por guerreiros mouros vindos de Santarém para destruir os campos do vale do Mondego. A construção de um castelo em Leiria faz parte da estratégia de defesa de Coimbra, sendo uma linha avançada em relação a Soure, que foi, até aos anos 30 do século XII, o ponto fortificado mais adiantado na extrema meridional do Reino. Este avanço agressivo, porque o era, entrava nitidamente em choque com as linhas de defesa dos islâmicos, que viam a sua posição em Santarém e mesmo em Torres Vedras, bastante fragilizadas, pois os cavaleiros cristãos podiam agora, a partir de Leiria, realizar fossados em direcção a Santarém, contornando a Torre de Toxe, que defendia a cidade do lado norte... e daí até Lisboa seria um "salto de cavalo" no jogo deste xadrês em que o jovem Afonso Henriques pretendia dar "xeque-mate" aos mouros. Assim que Santarém viesse a cair nas mãos dos Portugueses e Torres Vedras fosse tomada... Lisboa ficava apenas defendida por Sintra, à mercê dos cristãos, que de há muito a cobiçavam.
Por várias vezes teve o Rei D. Afonso I que vir em socorro do povo que estava acolhido no castelo de Erena (o nome árabe de Leiria), que havia sido construído frente ao castelo de Santarém com a intenção de combater os infiéis nesta cidade e daí conquistar as posições de Lisboa e Sintra e todas as fortificações castrenses que os Mouros tinham estabelecido na região.
Em 1144 os Mouros atacaram o castelo de Soure. No ano seguinte corria o apelo em Coimbra para se socorrer o castelo de Leiria, prometendo-se que quem viesse a morrer nesta empresa, teria o mesmo merecimento que poderiam obter nas lutas em Jerusalém. Era uma forma de aliciamento das populações coimbrãs para as lutas que aconteciam bem perto das suas terras, dissuadindo-as de irem para a Terra Santa como Cruzados... porque era aqui mais que necessários.
Até 1147, ano em que se dá a conquista de Santarém e Lisboa, as lutas por Leiria foram uma constante. Desde a sua fundação, em 1135 e 1147, foram doze anos em que houve a preocupação de manter uma guarnição militar, procurando esta encontrar no local meios de subsistência imediata, pois nos meses de Primavera e Verão viviam dependentes dos assaltos e pilhagens às terras mais férteis de além-fronteira, apreendendo cavalos e objectos de valor que vendiam por bons preços, tal como faziam prisioneiros que vendiam ou pelos quais pediam avultados resgates. Eram estas as principais ocupações dos primeiros habitantes de Leiria, por muito que custe dizê-lo a quem é da cidade, como é o meu caso.
Este ano de 1147 foi de mudança radical. A linha do Tejo ficou uma fronteira estável, mais difícil de transpor pelos vales e montanhas das serras de Aires e Candeeiros, pelo que as pessoas puderam, finalmente, fixar-se no amanho da terra, sair para fora das muralhas e começar a criar estruturas mais produtivas, que eram fundamentais para a sua existência.
Assim, a população da cidade foi crescendo com acentuada rapidez. A Igreja de Nossa Senhora da Pena foi sagrada ainda antes de 1147. Cinco anos depois já aparecem referencias à vila e muralhas. O Papa Adriano IV confirmou, em 1157, a doação feita por D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Santa Cruz dos direitos eclesiásticos sobre Leiria, referindo-se então a todas as igrejas existentes no Castelo de Leiria e às que ficavam no seu termo.
O facto é que os rendimentos das igrejas cresceram rapidamente... o que agravou as questões entre o prior de Santa Cruz e o Bispo de Coimbra acerca da aludida jurisdição eclesiástica. Mesmo com a doação do Rei e a confirmação papal e apesar de ter havido também a doação dos respectivos direitos pelo Bispo de Lisboa, em 1156, o Bispo de Coimbra dizia-se lesado e tentou por todas as formas recuperar esses direitos.
A luta pelos direitos eclesiásticos de Leiria foi tomada aqui como um sinal de consideráveis interesses materiais em jogo... mas estes eram realmente um sinal do crescimento rápido da população da cidade, o que se deduz pela referência à ponte de Leiria nos forais de 1142 ou 1144 e à prescrição do mesmo diploma que isenta os mercadores da cidade de portagens em todas as terras do Rei. Estes pormenores demonstram a existência de uma actividade comercial bastante importante, acontecida depois da reconstrução da povoação, sendo baseada nos objectos e bens capturados aos Mouros ou em perigosas mas rentáveis operações de transferência de bens entre os campos inimigos.
Por agora me fico nesta análise da Leiria medieval... desde a sua fundação! Outras ocasiões haverá para dela voltar a falar, como convém!
(Um trabalho inspirado na obra de J. Mattoso)

