Porque estamos no início do ano de todas as desilusões, apraz registar que também a sandinice de alterar a escrita para agradar a fulanos que não fizeram nada para mudar um ~ que pudesse considerar-se enriquecimento linguístico, porque usam uma língua que gostam de chamar "portuguesa" quando não passa de um amontoado de palavras, palavrinhas ou palavrões herdados dos povos que os antecederam, aqui fica o testemunho de quem não tem pejo em dizer o que pensa do ACORDO ORTOGRÁFICO "imposto" pelo Brasil a Portugal:
"Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o
computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.
De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio
vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua
portuguesa.
Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por
mim.
São muitos anos de convívio.
Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes
CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância.
Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha
da professora: - não te esqueças de mim!
Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como
quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí.
E agora as palavras já nem parecem as mesmas.
O que é ser proativo?
Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a
trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos
frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas
palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato.
Caíram hifenes e entraram RRR's que andavam errantes.
É uma união de facto, e
para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família.
Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque
já não se entendem.
Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's
passaram a ser gémeos, nenhum usa ( ^^^) chapéu.
E os meses perderam importância e dignidade; não havia
motivo para terem privilégios. Assim, temos
janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião.
Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas
palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não
tenham.
As palavras transformam-nos.
Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades,
mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos.
Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não
me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum
objeto.
Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser
atual nem atuante com um C a atrapalhar.
Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a
escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ...? ! ? ! ?
Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não
mexem na sua língua e porquê nós ?
Ou atão deichemos que os 35 por cento de anal fabetos
afroamaricanos fassão com que a nova ortografia imponha se bué depréça !"















