Segundo aprendemos na história, depois de autores como Fernão Lopes (Crónicas de el-rei D. João I - Aljubarrota) ou Almeida Garrett (Viagens na minha terra ), o jornalista de guerra português primeiro Hermano Neves
descreveu, nas páginas do jornal 'A Capital', todo o conflito que opunha os monárquicos chefiados por Paiva Couceiro, aos
republicanos recém-chegados ao poder, por força da implantação da República ocorrida em 5 de
Outubro de 1910.
Mais tarde, o mesmo jornal pretendeu enviar o jornalista H.Neves às frentes de batalha da Grande
Guerra, em França, mas as autoridades daquele país impediram-no de o fazer, pelo que foi o director do jornal 'O Século', Silva Graça, que se encarregou de redigir a primeira crónica da I Guerra Mundial,
perto de Ormont, França, publicada naquele jornal a 18 de Julho
de 1915.
Este
jornalista acabou por viveu o dia-a-dia das trincheiras, durante quase dois anos, gozando de uma
relativa liberdade para fazer os relatos do horror dos bombardeamentos
e do genocídio, feito na lama, de tantos milhares de soldados cujas
vidas eras ceifadas por rajadas de metralhadora ou
pela sufocação provocada pelo gás. Portugal participou no conflito apenas
para satisfação do ego de alguns generais e políticos,
que pareciam vampiros sedentos de sangue. E não respeitou sequer os conselhos dos Aliados, acabando por impor,
de imediato, uma férrea censura a tudo o que era publicado.
É aqui que vai aparecer o Padre
José Ferreira de Lacerda, leiriense de garra, o “sacerdote jornalista”,
como lhe chamou Joaquim Santos, na sua tese de mestrado José Ferreira de Lacerda, o sacerdote jornalista – A
Crónica sobre a Grande Guerra no Jornalismo Leiriense, onde se debruça sobre o fundador do jornal 'O Mensageiro' e autor de algumas
crónicas sobre a Grande Guerra.
Nesses artigos, o Pe. Lacerda falou de
alguns episódios ocorridos entre a sua partida para França - a 2 de Maio
de 1917 - e descreveu todo o negro cenário da guerra. “As crónicas
que o sacerdote-jornalista escreveu são testemunhos
documentais de extrema importância”, sublinha Joaquim
Santos.
José Ferreira de Lacerda nasceu no dia 23 de Abril de 1881, na freguesia de Monte Real .
Foi considerado
como uma figura polémica, mesmo nos meios
eclesiásticos, mas isso não o impediu de ser um homem de causas,
verdadeiro cidadão, político, foi cónego,
jornalista... e benemérito da cidade de Leiria.
Nas suas crónicas de guerra, o padre Lacerda acabou por introduzir no jornalismo
leiriense qualquer coisa mais que um espaço de debate político e
ideológico, pois veio actualizar a noção de que o acontecimento jornalístico tem uma
natureza especial. Sabendo que não bastaria ser apenas sacerdote,
apoiante moral das tropas ou fazendo o culto aos mortos,
foi um pouco mais longe e assumiu a função de
correspondente de guerra.
“As crónicas eram descritivas dos
acontecimentos bélicos, com pormenores impressionantes, vividos
na primeira pessoa, no risco da proximidade das
bombas a cair e da morte. As suas narrativas também
foram apelativas à movimentação da sociedade leiriense,
com o objectivo claro de ajudar os soldados que passaram
por momentos extremos da resistência humana”, explica
J.Santos.
O Pe. José Lacerda chegou à capital francesa no dia 9 de
Maio de 1917 e seguiu para a zona da Flandres, dado ser
destinado a Calais. Daí, dirige-se para Aire-Sur-La-Lys, onde o
Regimento de Infantaria n.º 7, de Leiria, lutava, em inferioridade,
contra os alemães, não se esquecendo de ir tomando notas para
publicar no seu 'O Mensageiro'.
Escreve, em letra bela e cuidada, o contraste entre a fome, a miséria nas ruas,
o sangue, as entranhas e o enorme caos da guerra.
“Quase entramos nos espaços da acção, com
uma descrição arrepiante dos acontecimentos mas também
de pormenores de circunstância, vividos fora das
trincheiras. Os seus relatos falam das muitas mulheres
vestidas de preto que encontrava pelo caminho, ou que via
no comboio.
Mães que perdiam os seus filhos, mulheres
que estavam viúvas e em grande pranto, crianças
abandonadas e com a falta dos seus pais. José Lacerda
trouxe às suas crónicas os apontamentos da guerra mas também dos
seus efeitos”, escreveu Joaquim Santos.
"Padre José Ferreira de Lacerda, Alferes capelão-militar de Artilharia 7
Os alimões
teem estado danados hontem e hoje. Não cessam de atirar ameixas. Esta carta é feita sentindo-as passar por cima da casa que habito.
Estão a bombardear uma fábrica. Os marotos atiram-lhes a mais de 5 quilometros e quasi lhes acertam. Se ouvisse o assobiar das granadas devia gostar, mas o pior são os efeitos… Hontem os alimões não
me deixaram dizer missa. São danados!... (…) Olhe: lá vai uma esquadrilha de aeroplanos e ouve-se a metralhadora cujo som me faz lembrar os sapos em noite quente ou as rãs. O canhão, é claro, não cesse de troar. Vou ver se lhe envio recordações do bombardeiro de 19 e 20. Veja um prove home com
um estilhaço daqueles na cabeça onde ia parar!... Quasi servem para esferas. Ando fino; o peior é a lama porque chove e não há lama mais pegajosa do que esta.
Até me custa sair á rua. Tinha tanta coisa que dizer, mas… Se visse os soldados escocezes com saias curtas e pernas à mostra, ria-se a perder.
Dentro de poucos dias devo ir ver a rapaziada de Leiria. Continúo em artilharia 7, que é a jóia dos regimentos em soldados e oficiaes. (…) Daqui a pouco os boches são capazes de nos cumprimentar com os gazes asfixiantes, repetindo as proezas das noutes anteriores. Temos de dormir de mascara ao pescoço.
Peço, diga, a quem por mim perguntar, que estou fino.”
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O Cónego José Ferreira de Lacerda morreu no seu posto, no Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, que tanto amava, no dia 20 de Setembro de 1971, durante as Festas da localidade.













